Marcas e mudanças, mudanças e marcas

Comecei a me preparar para escrever estas linhas, buscando informações mais precisas sobre o tema escolhido: o fenômeno do tornado e/ou microexplosão que ocorreu exatamente aqui onde moro, um dos bairros afetados na cidade de Campinas.

Desisti de procurar a fundo essas informações, pois foi muito difícil rever as notícias, as fotos, os comentários, as histórias… Mas de tudo o que vi e li até então, creio poder falar um pouco a respeito, talvez mais movida pelas marcas que ficaram e mudanças que chegaram.

Naquela noite, recolhida para dormir, percebi reflexos de raios por uma pequena janela lateral, um após outro seguidamente. Sons de trovão emendando-se em intervalos muito curtos, quase se sobrepondo. Vento forte. Até aí, nada muito fora do normal por estas áreas, exceto pelo fato de estarmos às portas do inverno, época em que predomina o tempo seco (pode durar alguns meses), e já estava chovendo há cerca de dez dias sem parar…

Olhei para o relógio: lá estavam os primeiros trinta minutos do dia mundial do meio ambiente. Tentei me aquietar, mas não foi possível: comecei a ouvir um barulho diferente, que aos poucos aumentava, dando a impressão de estar se aproximando. Intuição apurada ou instinto antigo, não me pareceu coisa boa – abracei minha gata, já esperando um impacto mais violento. E veio. Vários estrondos, alguns mais próximos, outros mais afastados. Queda de energia. Raios, trovões, vento, tudo intensamente… Depois desse sufoco, tudo foi se distanciando no espaço, no tempo (o tremor incontrolável, porém, não passou logo). Fui vistoriar se algo precisava de reparo urgente e constatei, de início, poucas avarias. No dia seguinte, na rua, à medida que me afastava de casa, percebi que cresciam os estragos. Indescritível a sensação.

Enfim, o que pude reter nessa semana inesquecível (que continuou chovendo, e depois a sensação térmica chegou a -9°C) foi que ninguém sabia dizer ao certo, ainda, se ocorreu tornado ou microexplosão (ou os dois ao mesmo tempo), além da chuva de granizo e da tempestade elétrica (cerca de 1.450 raios caíram durante apenas sete horas). As marcas deixadas foram significativas: animais foram lançados longe (inclusive de dentro para fora dos imóveis), mais de 1.300 árvores arrancadas (além das machucadas), centenas de casas e outros prédios avariados (alguns só serão recuperados após inteira reconstrução), muitos postes de concreto retorcidos no chão etc. Se isso tivesse acontecido durante o dia, teríamos também vítimas fatais humanas. As marcas emocionais, como disse, não se descrevem, provocam, sim, mudanças internas – o cenário íntimo não permanece o mesmo, requer cuidado.

Porém há algo maior, questões que precisam ser aprofundadas: por que não temos as respostas mais precisas sobre a possível conjunção de fenômenos, uma vez que já consideram a região suscetível a eventos dessa monta? Por que não há um sistema de alerta? Por que quase não se ouve falar sobre a possibilidade de as mudanças climáticas estarem na origem desse episódio extremo? Conseguiremos continuar desprezando as forças da natureza quando se propagarem, e em períodos menores entre uma ocorrência e outra? Os estudiosos terão tempo de decifrá-las e tentar esclarecer sobre a urgência das mudanças que precisamos promover em nossos hábitos, para ontem?

As marcas e as mudanças são bem fáceis de se constatar, pois as sentimos na pele e no coração. Porém as mudanças que estamos provocando no planeta têm sido difíceis de ser por nós assumidas, aplacadas e revertidas. São provavelmente essas mudanças no clima que estão trazendo marcas dolorosas. Quantos de nós precisaremos experimentá-las para que então, coletivamente, sejam minimamente evitadas, ao menos quanto à parte que nos cabe fazer?

Marcas e mudanças, mudanças e marcas… Sabemos quem nasceu primeiro.

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Eliza Rei

Eliza Rei

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Natural de Campinas/SP. Graduação em Ciências Sociais. Extensão em Economia do Trabalho. Servidora Federal. Fotógrafa amadora.

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