Esse artigo não é uma indicação de espécies para arborização

Hoje vou escrever um texto um pouco diferente, relacionado realmente à arborização urbana, pois estou “cansada de ler” diversos artigos onde as pessoas indicam espécies para a arborização, sem ter a mínima noção do que se trata a BIODIVERSIDADE. E isso é triste porque eu não estou falando de pessoas totalmente leigas, e quero acreditar que essas pessoas estão dando essas “orientações” com certa inocência, porque querem pura e simplesmente uma cidade mais arborizada e estão cansadas de ver (as coisas que eu também vejo bastante) a árvore sempre sendo tratada em último plano, como se não fosse um ser vivo.

Essa última parte eu digo pois ouvi uma vez uma garota, de no máximo uns vinte anos, com certeza em fase escolar ou universitária, comparar árvores com coisas, e dizer (na minha cara) que “seres humanos são mais importantes que árvores”. Mas não vou nem entrar nesse assunto agora, vou deixar pra falar de ecologia numa outra oportunidade.

Enfim, se eu pudesse dizer aos meus colegas “não escrevam na internet sobre que árvores utilizar para a arborização urbana”, eu faria. Só que seria até desleal com a sociedade, pois considero a divulgação de ciência e tecnologia uma das coisas mais importantes na atualidade. Então vamos aos pontos:

1. Na arborização urbana deve-se levar em consideração o bioma local: cada local vai ter suas particularidades de clima, temperatura, solo, relevo, disponibilidade de água, etc. Então não adianta nada eu querer colocar espécies de clima temperado em um local predominantemente tropical, assim como escolher árvores de crescimento rápido, mas que não servirão de habitat para pequenos insetos nativos, ou mesmo para vertebrados locais…

2. Outra coisa importante é não pensar que uma espécie só é o suficiente para compor a paisagem urbana de uma cidade inteira. Aqui em São Luís “invocaram” com o ipê. Mas pode piorar: na maioria das cidades do interior do nordeste, pelo que pude perceber em duas viagens que fiz (de São Luís a Fortaleza, no Ceará, pelo litoral; e de São Luís a Salvador, na Bahia, passando por Petrolina-PE e Juazeiro-BA), grande parte da arborização das cidades é feita com o nim ou neem indiano (Azadirachta indica A. Juss), que é uma espécie exótica conhecida por ter folhas com propriedade repelentes.

3. Tá, aí vocês podem escolher duas espécies, mas todas são plantadas na cidade por estaquia. E eu venho com outro problema pra vocês: já ouviram falar em diversidade genética? Pois é, aula de biologia gratuita: se não há diversidade genética, só pode ser o mesmo indivíduo. Então se é o mesmo indivíduo, se “um” pega algum tipo de doença (ou tem um predador/praga em constante crescimento), advinha? Pois é… todas as árvores da cidade estarão sujeitas a pegar a mesma doença.

4. A gente não tem noção, mas a grande maioria das quedas de energia ocorre por causa de árvores. Como assim? A árvore, ou um galho dela (que provavelmente já tinha algum problema), cai sobre a rede elétrica, causando a queda. Pode ser chuva, tempestade, vento, as geralmente tem relação com a árvore caindo sobre os fios. Sendo assim, de que adianta não planejar e plantar tudo errado? E eu nem estou falando de não plantar ao lado da rede, mas de saber escolher a espécie certa, se você sabe quanto ela pode crescer e a forma correta de podar. 

5. E último: tem fruto grande (ou qualquer outra parte que possa cair e dar prejuízo)? Não queira colocar no meio fio! Em Belém (e lá eles tem Plano de arborização!) escolheram a mangueira como árvore símbolo da cidade. Não dá pra culpar a população, lá essas árvores são centenárias! Mas imagina o prejuízo que a prefeitura deve ter para reembolsar motoristas? (Imaginem as árvores caindo por cima dos carros…) Aqui em São Luís, Terra das Palmeiras, o gosto é pelas palmeiras… Vamos tirar todas as palmeiras do meio-fio? Não, né? Mas se a gente não plantar coqueiro neles, já tá bom, né? E existem outros lugares que podem ser contemplados, né? Tantas praças e parques que merecem ser usados e revitalizados!
Me contem, e na cidade de vocês? Sabem se existe plano de arborização? Quais as espécies (pode ser nome popular) que vocês mais encontram? Sabem se são espécies nativas? Prometo tentar escrever soluções para os problemas que eu trouxe, esse texto foi mesmo um desabafo!

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